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VGBL vs PGBL: a matemática que coloquei no Prev Calc

Como modelar contribuição, benefício fiscal, reinvestimento e tributação dos dois produtos de previdência privada para chegar numa comparação honesta de renda mensal líquida.


A pergunta parece simples: VGBL ou PGBL?

Quando você vai numa corretora, a resposta é quase sempre a mesma: "depende da sua declaração de IR, se for completa vai PGBL, se for simplificada vai VGBL". Tecnicamente correto, mas raso. A pergunta interessante não é qual produto escolher — é quanto cada um te entrega de renda mensal líquida na aposentadoria, comparáveis diretamente.

Para responder isso no Prev Calc, tive que modelar quatro coisas que muitos simuladores ignoram:

  1. Tributação na fase de acumulação (PGBL deduz, VGBL não)
  2. Reinvestimento da economia fiscal do PGBL
  3. Tributação na fase de resgate (PGBL sobre total, VGBL só sobre ganho)
  4. Regime regressivo do IR no longo prazo

Cada uma tem armadilhas. Esse post detalha cada uma e mostra a matemática que rodou no simulador.

1. O benefício fiscal do PGBL

A regra: contribuições para PGBL são dedutíveis no IR até 12% da renda bruta tributável.

Em código:

function calcularDeducaoMaxima(rendaBrutaAnual) {
  return rendaBrutaAnual * 0.12;
}

function economiaFiscalAnual(contribuicaoPGBL, aliquotaMarginal, rendaBrutaAnual) {
  const deducaoMax = calcularDeducaoMaxima(rendaBrutaAnual);
  const deducaoEfetiva = Math.min(contribuicaoPGBL, deducaoMax);
  return deducaoEfetiva * aliquotaMarginal;
}

A primeira armadilha: muitos simuladores assumem que toda a contribuição PGBL deduz. Não é verdade. Se você ganha R$ 100k/ano e contribui R$ 20k pro PGBL, só R$ 12k deduzem. Os outros R$ 8k continuam tributados normalmente.

A segunda armadilha: a economia depende da alíquota marginal, não da efetiva. Se você está na faixa dos 27,5%, cada R$ 1.000 deduzidos te dá R$ 275 de economia. Mas se sua renda é baixa o suficiente pra estar nos 7,5% ou 15%, o PGBL perde muito do encanto.

2. O reinvestimento da economia fiscal

Aqui está a parte que poucos simuladores tratam com cuidado.

A economia de IR do PGBL só faz sentido se ela for reinvestida. Se você usa o dinheiro pra comprar um carro, o PGBL virou pior que VGBL — você só adiou o imposto.

No Prev Calc, eu assumo que a economia anual de IR é reinvestida no próprio PGBL no ano seguinte. Isso é o que um investidor disciplinado faria, e é o que faz a comparação ser honesta.

function simularPGBLAnoAAno(params) {
  let saldo = params.saldoInicial;
  const fluxos = [];

  for (let ano = 1; ano <= params.anosAcumulacao; ano++) {
    const contribuicao = params.contribMensal * 12;
    saldo = (saldo + contribuicao) * (1 + params.taxaNominal);

    // No fim do ano, reinveste a economia fiscal do ano anterior
    if (ano > 1) {
      const economiaAnoAnterior = economiaFiscalAnual(
        params.contribMensal * 12,
        params.aliquotaMarginal,
        params.rendaBrutaAnual,
      );
      saldo += economiaAnoAnterior;
    }

    fluxos.push({ ano, saldo });
  }

  return fluxos;
}

A diferença do "PGBL com reinvestimento" para "PGBL sem reinvestimento" pode ser de 20-30% no patrimônio final em horizontes de 25-30 anos. Não é detalhe.

3. A tributação no resgate

Aqui o VGBL ganha sua revanche.

No VGBL, o IR incide só sobre o rendimento. Se você contribuiu R$ 500k ao longo de 30 anos e o saldo virou R$ 2M, o IR incide sobre os R$ 1,5M de ganho.

No PGBL, o IR incide sobre o total. Mesma simulação: R$ 2M, IR sobre os R$ 2M.

function calcularIRSaque(produto, valorSaque, rendimentoAcumulado, aliquotaIR) {
  const baseCalculo = produto === "VGBL" ? rendimentoAcumulado : valorSaque;
  return baseCalculo * aliquotaIR;
}

A pergunta-chave: a economia fiscal acumulada na fase de acumulação compensa o imposto a mais na fase de resgate?

A resposta exige modelar o regime regressivo.

4. O regime regressivo

A maioria dos contratos de previdência usa o regime regressivo de IR, que premia quem fica mais tempo:

Tempo no planoAlíquota
Até 2 anos35%
2 a 4 anos30%
4 a 6 anos25%
6 a 8 anos20%
8 a 10 anos15%
Acima de 10 anos10%

Para um plano de 30 anos, a alíquota efetiva é 10%. Isso é o que torna a previdência atraente: 10% de IR final é quase metade do que você pagaria nos 22,5% mais baixos do regime progressivo.

Mas tem um detalhe traiçoeiro: a contagem de tempo é por contribuição, não pelo plano todo. Se você abriu o plano há 30 anos mas fez uma contribuição extra ontem, aquela contribuição volta a ser tributada em 35% se você sacar nos próximos 2 anos.

No Prev Calc, eu trato cada mês de contribuição como uma "tranche" separada com sua própria alíquota regressiva, e o saque retira primeiro das tranches mais antigas (mais baratas fiscalmente). Isso é o método PEPS (primeiro a entrar, primeiro a sair) para fins fiscais.

function calcularIRSaqueRegressivo(tranches, valorSaque) {
  let restante = valorSaque;
  let irTotal = 0;

  // Ordena por antiguidade — saca primeiro das mais antigas (10%)
  const ordenadas = [...tranches].sort((a, b) => a.dataContribuicao - b.dataContribuicao);

  for (const tranche of ordenadas) {
    if (restante <= 0) break;
    const sacado = Math.min(restante, tranche.saldo);
    const aliquota = aliquotaRegressivaPorIdade(tranche.dataContribuicao);
    irTotal += sacado * aliquota;
    restante -= sacado;
  }

  return irTotal;
}

É um nível de detalhe que muitos simuladores deixam de lado, mas é o que torna o cálculo realista.

Quando PGBL ganha (e quando não ganha)

Depois de modelar tudo isso, o resultado fica claro. PGBL ganha quando:

  • Você está em alíquota marginal alta (22,5% ou 27,5%) hoje
  • Você reinveste 100% da economia fiscal
  • Tem horizonte de 10+ anos (regime regressivo cai pra 10%)
  • Sua renda na aposentadoria será menor que a atual

VGBL ganha quando:

  • Você usa declaração simplificada
  • Sua alíquota marginal hoje é baixa (7,5% ou 15%)
  • Você não conseguiria reinvestir a economia
  • Sua renda na aposentadoria pode subir (heranças, aluguéis, etc.)

E a opção quase sempre superior a um deles puro: PGBL até 12% da renda bruta, VGBL pro restante. O simulador permite esse split, e em quase todos os cenários, ele bate ambos os produtos puros.

A renda mensal: a fórmula PMT

Depois de calcular o patrimônio acumulado e o IR a pagar, falta a parte mais importante: transformar o patrimônio em renda mensal.

A fórmula é PMT (payment), padrão de finanças:

function calcularRendaMensal(patrimonio, taxaMensalReal, mesesConsumo) {
  if (taxaMensalReal === 0) {
    return patrimonio / mesesConsumo;
  }
  return patrimonio * (taxaMensalReal / (1 - Math.pow(1 + taxaMensalReal, -mesesConsumo)));
}

Essa fórmula assume que você quer zerar o patrimônio na expectativa de vida. Se você prefere deixar herança, o cálculo muda — você restringe o saque a alguma porcentagem do patrimônio (regra dos 4%, por exemplo).

O Prev Calc oferece os dois modos. O default é zerar, porque é o que maximiza renda mensal e é o que faz mais sentido pra quem está usando previdência como aposentadoria pura.

Por que isso importa

Quando você combina os quatro elementos — dedução com teto, reinvestimento da economia, tributação diferenciada no resgate, regime regressivo por tranche, e PMT pra renda — você sai de uma resposta vaga ("depende da declaração") pra uma resposta concreta ("R$ 8.230 vs R$ 7.890 por mês durante 30 anos").

Essa diferença de R$ 340/mês durante 360 meses é R$ 122.400. Não é decisão para chutar.

A matemática não é especialmente difícil — é só boring math aplicado com cuidado. O que costuma faltar não é capacidade técnica; é foco em entregar uma resposta direta ao usuário.

Se você quer ver isso rodando, abre o Prev Calc e mexe nos sliders. Os números mudam em tempo real, e cada premissa é editável.